Ao longo da história o esporte se mostrou um dos meios mais eficazes para se promover a integração entre povos. E isso está acontecendo novamente, dessa vez em solo africano. As seleções da África terão a chance de mostrar para o mundo que além de bom futebol, são representantes de um continente disposto a superar a imagem negativa deixada pelas guerras civis, desigualdades sociais e divisões étnicas.

O desafio não será fácil, porém os times da África do Sul, Nigéria, Gana, Camarões, Costa do Marfim e Argélia terão uma ótima oportunidade de dividirem suas tradições culturais com o mundo, além, é claro, de brigarem pelo primeiro título mundial para um time africano.

Para ilustrar esse espírito, a Puma (fornecedora de material esportivo das seleções de Gana, Camarões, Costa do Marfim e

 

Argélia) elaborou a campanha “Unity”, com a participação de três dos principais jogadores africanos que disputarão a Copa. Uma das artes da campanha foi feita pelo artista norte-americano Kehinde Wiley, conhecido por trabalhar com temas afro-americanos.

Na arte vemos o atacante camaronês Samuel Eto´o e os zagueiros John Mensah, de Gana, e Emmanuel Eboué, da Costa do Marfim, juntos para passar a imagem de uma África unida, sem deixar de lado sua diversidade cultural.

O mesmo acontece em estilos musicais criados no continente africano como o afrobeat, que une gêneros distintos para criar uma sonoridade própria desafiadora.

Os historiadores apontam o continente africano como o berço da humanidade. Para a música, a África também é o berço de muitos estilos que hoje são consagrados mundialmente.

A chamada “música negra” contemporânea é carregada de elementos da música africana. Conhecidos gêneros como o blues, o jazz, a salsa, entre outros, derivam de ritmos tradicionais africanos, levados para a América e outras partes do planeta pelos escravos.

O caminho inverso também aconteceu, e e alguns estilos desenvolvidos nas Américas e na Europa invadiram alguns países africanos, se misturando aos ritmos locais e originando gêneros surpreendentes com o afrobeat.

A Nigéria dos anos 70 foi o palco da criação desse estilo que combina música yorubá (gênero tradicional do povo Yoruba, baseado em instrumentos percussão), funk, jazz e highlife (gênero que veio de Gana e Serra Leoa, que mistura instrumentos de sopro e múltiplas guitarras).

O responsável por essa rica miscigenação sonora foi o músico nigeriano Fela Ransome Kuti, considerado o pai do afrobeat. Acompanhado por sua big band Afrika 70, Fela se tornou um dos artistas mais notórios de seu país, com mais de 80 discos gravados.

Fela Kuti também ficou conhecido por seu engajamento político, desafinado as ditaduras do continente africano, tanto nos temas das letras de suas canções, quanto em sua postura como cidadão.

 

Por isso foi preso mais de uma vez por conta de seu posicionamento político. Em 1979 chegou a se candidatar à presidência da Nigéria, o que não foi aceito pelo sistema eleitoral de seu país.

Porém, suas mensagens políticas não conseguiram ser abafadas graças à força de sua música. Ao longo da década de 70 lançou verdadeiros álbuns clássicos, entre eles “Fela’s London Scene” (1970), “Gentleman” (1973), “Up Side Down” (1976), “No Agreement” , “Zombie”, e “Opposite People”, os três últimos lançados em 1977.

Boa parte de suas canções tinham mais de 10 minutos, com longas introduções instrumentais amparadas pela bateria polirítmica Tony Allen (músico que acompanhou Fela em boa parte de sua carreira), baixo e riffs de guitarra sobrepostos. Essa sólida estrutura musical era cortada por incursões do naipe de metais e por vocais de Fela e suas backing vocals. Além de cantar, Fela tocava saxofone, trompete, teclado, guitarra e se aventurava em solos de bateria. Era um verdadeiro maestro a frente de uma orquestra que mesclava as tradições da música africana com o funk e o jazz, com muito espaço para solos e improvisações.

Fela morreu em 1997, devido a complicações do vírus da AIDS. Mais de um milhão de pessoas compareceram ao seu funeral na Nigéria. Porém, seu legado continua vivo até hoje, assim como suas canções, que além de toda a força social e política criaram uma nova forma de se fazer música na África.

Por Luiz Guilherme Moffa e Gabriel Sáez